Senhora Do Lago
(Walter Paulino)
 
 
 
 
Todas as noites por dias e dias
era transportado à beira de um lago
de gelo, no alto de uma montanha,
só alcançada pelo luar
Ao entardecer, uma brisa suave
e fria vinha tocar-me as janelas
e sussurrava aos meus ouvidos...
" Vem..."
 
 
E eu a seguia em silêncio e êxtase
por vales imensos e gargantas profundas
Uma nesga de mar a minha esquerda
O negrume de uma floresta à direita,
desertos flamejantes que bebiam
os últimos raios de sol
Um alçar de vôo...
e lá estava eu à beira do lago...
Quieto, tranqüilo, a espelhar
um céu vítreo
 
 
Uma noite de Lua alta e clara
onde as estrelas parecem recolher-se
a uma certa distância para,
como eu, observar perplexo
o brilho da Lua imensa,
prateada, serena, felina,
a deslizar sobre a copa dos céus
 
 
E assim que ela aparece,
de uma das margens do lago,
surge ela deslizando tímida
e resoluta, suave, cálida,
de movimentos majestosos,
uma forma, não, não,
uma aparição,
um prodígio de gestos femininos
a deslizar pelas águas do lago,
movimentos silenciosos,
noturnos, sinuosos
 
 
E dança e na sua dança põe
em suspenso o movimento lunar
e suas marés
Tão pungentes são seus movimentos
que meu coração dança,
geme, ri e chora;
um choro quente, sentido,
minha alma suspira e soluça
ao vê-la dançar,
formosa e reluzente
 
 
Vestida com a luz das lembranças
e das estrelas, vestida de sonhos,
graça, fantasia...
Uma harmonia
Céu e Terra se juntam
naqueles movimentos reais
e fantásticos, precisos...
 
 
Seus pés parecem não tocar
a face do lago...
suas mãos cortam o ar frio da noite
tangendo meu coração
Lembranças vivas
saltam-me do cenho e dançam...
dançam e rodopiam...
 
 
Sou eu no meio do lago
a girar, girar, e girar...
em círculos e órbitas
cruzando com ela
sem nunca nos tocarmos,
sem nunca mirar o fundo
se seus olhos negros...
Girando e girando...
 
 
Seu rosto espelha todas as noites...
todas as estações...
Todos os apelos do meu coração...
 
 
 

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