Restou-me Um Poema
 
(José Geraldo Martinez)
 
                                     
 
Queria oferecer-te um feito histórico,
que jamais alguém conseguiria
fazer um igual!
Que fosse de tão único,
meio sobrenatural...
O que faria?
Mesmo que me custasse
Às duras penas!
 
Mas de ser tão pobre...
restou-me um poema!
Escrevi, por vários anos,
cada dia uma palavra,
para te dizer o quanto te amava!
Noites a fio me inspiravas
nas lembranças que tu me davas
 
E o tempo,
meu único companheiro...
com sua enorme paciência,
retocava-me a cada janeiro!
Escrevia nele um poema, único
Ninguém jamais faria um igual...
De um amor verdadeiro!
Às duras penas que fosse,
retocá-lo a cada instante
que o achasse normal!
 
Teria que ser diferente,
o maior,
que fizessem as pessoas sonharem,
se apaixonarem...
atemporal!
Até meu amor ausente,
dona do meu grande feito,
dele fizesse imortal...
 
Poema musicado em serestas,
regido por grandes orquestras,
na mais singela flauta doce!
E levantasse minha amada do sono...
no amor maior que fosse
Que fizesse mover o vento,
todas as campinas...
Cruzasse mares e colinas,
suspirasse o amanhecer!
 
Um poema de amor em vida
e quando da morte em guarida...
eterno ser!
Tombo-me no poema inacabado,
anos dedilhados e escritos...
Nos versos por mim rabiscados,
busco ainda um mais bonito!
 
Até que minhas mãos tremulas,
traíram-me com algemas da velhice!
E meus lábios silenciando...
deixa por eles falando
o vento fresco das planícies!
 
Se não terminar meu poema,
que assim às duras penas...
minha vida carregou!
Deixarei no céu estrelas,
os rios e cordilheiras...
declamarem meu amor
 
As aves no infinito,
o céu sangrando aflito
num manso entardecer...
O perfume das camélias,
dos jasmins e rosas belas
e o sol do amanhecer!
Falarão por mim se eu me for,
e todo verso de amor,
serão minha voz, meu poema!
Divinal, sobrenatural...
Do amor, qualquer loucura
que valesse à pena!
 
E se maior não fosse,
juntado o universo...
Pobre que sou,
nada mais teria além do meu amor...
Dar-te-ia meus versos!