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Pai - Fita De Vídeo
(William Douglas)
Tento filmar meu pai,
perenizá-lo no vídeo,
guardá-lo, guardar suas
formas,
seu jeito de falar e andar,
seu sorriso
Tento agarrar um pouco mais
do que, antes da fita,
me davam as fotos
É possível guardar até a sua
voz,
algumas de suas histórias,
mas não é possível guardar
quase nada
Como guardar um abraço?
Como abraçar uma fita?
Então me convenço de como é,
afinal, curta a vida,
como é afinal, curta a vida
Levamos anos e anos
até conseguirmos ser capazes
de sentar ao lado e ouvir,
sentar ao lado e perceber,
mas logo vemos como
as coisas andam rápido,
como os cabelos
embranquecem,
a pele enruga, o vigor esvanec e,
a saudade aperta,
como os dias ficam mais
frios,
como as coisas ficam
mais inexplicáveis,
e ao mesmo tempo,
como vamos com elas
mais nos conformando
Nesta hora, mirra-se o pai,
e se teme
A vida vai avisando aos
poucos,
que ela nos devora os dias,
dia a dia, momento a
momento,
e quando se depara
com os traços no rosto,
tememos, tememos a solidão,
tememos a falta da voz,
do abraço, do jeito do pai
andar...
E não adianta tentar parar o
tempo,
ele não pára, e tento
guardar
um pouco disso tudo
no bolso, no armário,
na foto, na fita
Mas é quando vejo
que não se guarda quase
nada,
que não se guarda um abraço,
um sorriso, que não se
guarda
uma opinião sobre um fato
novo na vida,
pois a gente precisa do pai,
da mãe, do irmão, da irmã,
para cada fato novo,
para cada dia novo
Não dá para guardar nada
As coisas fogem das mãos
O tempo escorre a cada
momento
Tudo passa, tudo foge,
tudo envelhece
Às vezes a gente se ilude,
como fato, a realidade,
que nossos pais se perenizam
em nós, no que nos
ensinaram,
nos momentos que juntos
compartilhamos,
na nossa própria carne,
mesmo nas doenças herdadas,
na forma do corpo,
nos vícios recebidos no
convívio,
nos valores, nas idéias,
que tudo isso guarda
do nosso pai e da nossa mãe
apenas em nosso peito um
pouco
Mas, o pai e a mãe da gente,
os de verdade, os originais,
os que não são em nós mesmos
um pouco deles,
o pai e a mãe da gente
envelhecem, passam
Como isso dói na gente
quando se pensa:
eles passam,
com o tempo, com os anos,
mas passam,
e é quase certo que vamos
ficar sós, como eles mesmos
já ficaram de seus própri os
pais
Então a gente guarda um
pouco,
umas míseras migalhas,
mas não guardamos nada,
não levamos nada
Resta, pois, aproveitar o
dia,
conversar, cuidar, ouvir,
zelar, sugar cada instante
com serenidade,
mas com paixão infinita,
após compreender
a graça inesgotável,
o privilégio imensurável
de um único momento,
talvez o último,
talvez o único!
Tudo isso porque se sabe,
aos poucos se sabe,
que fitas de vídeo,
que fotos,
que cartas,
que tudo, nada, nada,
substitui um olhar,
um suspiro, a voz, a vida,
a existência
(efêmera como a nossa
própria),
a presença da pessoa que se
ama,
enquanto a podemos tocar
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