Juízo Final
(Gilka Machado)
Aqui me tens horrivelmente nua, liberta e
levitante, sem atitudes, sem mentiras, sem disfarces, ante o infinito da bondade
tua
Perdoa-me Senhor, o sonho de outro mundo (meu
pobre mundo tão efêmero e inferior) desdenhosa do teu perfeito e
eterno!
Perdoa-me Senhor, por meus excessos de timidez e
de audácia, de ódio e paixão, de acolhimento e de repúdio!
Perdoa-me Senhor, pelos ímpetos que não refreei,
pelas lágrimas que provoquei, pelas chagas que não curei, pela fome que não
matei, pelas faltas que condenei, pelas idéias que transviei
Perdoa-me Senhor, por ter amado tanto o amor com
toda sua falsidade, com todo o seu infernal encanto que ainda perdura nesta
saudade!
Perdoa-me Senhor, pelo que sou sem que o tivesse
desejado, pelo que desejei e não fui nunca, pelo que já não mais poderei
ser!...
Perdoa-me Senhor, os pecados conscientes que te
trago de cor!
Perdoa-me Senhor, porque não te perdôo o não me
haveres feito, um ser perfeito, uma criatura melhor
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