Fadiga
(Cecília
Meireles)
Estou cansada, tão
cansada
Estou tão cansada! que fiz
eu?
Estive embalando, noite e
dia,
um coração que não
dormia
desde que seu amor
morreu
Eu lhe dizia: "Deixa a
morte
levar teu amor! Não faz
mal
É mais belo esse heroísmo
triste
de amar uma coisa que
existe
"Deixa a morte... não
chores...dorme!"
Noite e dia eu cantava
assim
Mas o coração não
falava;
chorava baixinho,
chorava,
mesmo como dentro de
mim
Era um coração de
incertezas,
feito para não ser
feliz;
querendo sempre mais que a
vida -
sem termo, limite,
medida,
como poucas vezes se
quis
O tempo era ríspido e
amargo
Vinha um negro vento do
mar
Tudo gritava, noite e
dia,
e nunca ninguém
ouviria
aquele coração
chorar
Uma noite, dentro da
sombra,
dentro do choro, a sua
voz
disse uma coisa
inesperada,
que logo correu,
derramada
num silêncio fino e
veloz
"Meu amor não morreu:
perdeu-se
Ele existe. Eu não o quero
mais"
O choro foi levando o
resto
Eu nem pude fazer um
gesto,
e achei as horas
desiguais
E achei que o vento era
mais forte,
que o frio causava
aflição;
quis cantar, mas não foi
preciso
E o ar estava muito
indeciso
para dar a vida a uma
canção
A sorte virara no
tempo
como um navio sobre o
mar
O choro parou pela
treva
E agora não sei quem me
leva
daqui para qualquer
lugar,
onde eu não escute mais
nada,
onde eu não saiba de
ninguém,
onde deite minha
fadiga
e onde murmure uma
cantiga
para ver se durmo
também
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