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Eu Sei, Mas Não Devia
(Marina Colasanti)
Eu sei que a gente se acostuma...Mas
não devia,
A gente acostuma a morar em
apartamento de fundos. E não ter outra vista que não as janelas ao redor. E
porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha
para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as
cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se
acostuma, esquece o sol, o ar, e a amplidão
A gente se acostuma a acordar de
manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está
atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo de viagem... A
cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem
ter vivido o dia...
A gente se acostuma a esperar o dia
inteiro e ouvir ao telefone: Hoje não posso ir!. A sorrir para as pessoas sem
receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava ser
visto...
A gente se acostuma à poluição: às
salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro; à luz artificial de
ligeiro tremor; ao choque que os olhos levam na luz natural; às bactérias da
água potável; à contaminação da água do mar; à lenta morte dos rios. Se acostuma
a não ouvir os passarinhos; a não ter galo de madrugada; a temer a
hidrofobia, os cães; a não colher fruto no pé; a não ter sequer uma
planta.
A gente se acostuma a pagar por tudo
o que deve e de que necessita. A lutar por ganhar o dinheiro com que paga e
pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a
procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro para ter com que pagar nas
filas em que se cobra.
A gente se acostuma... A ser
instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando
não perceber, vai afastando uma dor daqui, um ressentimento ali, uma revolta
acolá.
A gente se acostuma para poupar a
vida, que aos poucos se gasta e que se gasta de tanto acostumar, se perde de si
mesma...
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