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Despir
um Corpo a Primeira Vez
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Despir um corpo a primeira vez
é um
conhecimento entre dois deuses
Não se
pode profanar o instante
E os
amantes devem manter o ritmo dos altares
Porque,
embora nesses rituais haja sempre
panos e
trajes para agradar o Olímpio,
é pra
nudez total que o céu nos quer quebrar
As mãos
tem que ter um compasso certo
Um
andante ou laro de Bach nos gestos,
compondo a alegria dos homens e mulheres
As
mãos, sobretudo, não podem se apressar
Com os
olhos têm que aprender e, com a ponta
dos
dedos, contemplar os acordes que irão
surgindo quando, peça por peça,
o corpo
for se desvestindo ao pé do altar
Antes
de se tocar com as mãos e lábios,
na
verdade, já se tocou o corpo alheio
com um
distraído olhar sempre envolvente
E
ninguém toca um corpo impunimente
Despir
um corpo a primeira vez, não pode ser
coisa
de poeta desatento colhendo futilmente
a flor
ofertada num abundante canteiro de poesia
Nem
pode ser coisa de um puro microscopista
que
olha as coisas sabiamente
Se tem
que ser de sábio olhar,
que
seja do botânico, porque esse saber aflorar
em cada
espécie tem de mais secreto ou distante,
o que
cada espécie sabe dar
Despir
um corpo a primeira vez
é
conhecer, pela primeira vez uma cidade
E os
corpos das cidades tem portas para abrir,
jardins
de pousar, torres e altitudes
que excitam a visitação
Quando
os corpos se tocam por acaso,
como se
estivesse indo em direções diferentes
o que
ocorre é desperdício
Não se
pode tocar um corpo impunimente
Para se
tocar um corpo completa e profundamente,
num
dado instante, os corpos têm que se convergir
E
convergir com uma luz diferente
A
descoberta do outro é isso, é convergência
Despir
um corpo a primeira vez
é como despir um presente, por isso não se
pode
desembrulhá-lo assim às pressas, embora a
gula
nos
precipite afoitos sobre a pele ofertada
Não se
pode com as mãos infantis,
descompassadas, ir rasgando invólucros,
arrebentando cordões com gula que às
crianças
só têm
nas confeitarias antes da indigestão
Um
corpo é surpresa sempre
E o que
se vê nas praias,
nessa
pública ostentação, nesse exercício coletivo
de
nudez negaceada, em nada tira a eufórica
contentação do ato, quando os dedos vão
desatando botões e beijos,
e
rompendo as presilhas das carícias
Despir
um corpo a primeira vez
não é
coisa de amador
Só se o
amador for amador da arte de amar,
porque
o corpo do outro não pode ter
a sensação de perda, mas a certeza de que
algo
nele se somou, que ele é um objeto
luminoso que a outros deve iluminar
Um
corpo a primeira vez,
no
entanto, é frágil e pode trincar
em
alguma parte
E os menos resistentes
se
partem, quando aquele que os toca,
os toca
apenas com cobiça e nunca
a
generosa mansidão de quem veio
pela
primeira vez, e sempre, para amar
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