Deserto Do Líbano
(Walter Paulino)
 
 
 
 
À beira do meu caminho
havia um homem-espelho
De pronto não o vi
porque face não tinha
E todo o seu ser era um espelho
do caminho que havia
Ao ver-me ficou de pé
e convidou-me a chegar
"Não se para com estranhos
no Caminho de Vela"
Mas quanto mais me aproximava,
mas nele eu via traços
E cheiros, cores e formas,
risos a muito esquecidos, sustos
E lágrimas contidas
Vi que me espelhava o íntimo,
 e como as nuvens do céu
davam forma ao meu oculto
Senti-me encantado, e apaixonei-me
Me descobri abraçando
velhas lembranças,
acariciando sonhos e bebendo risos
Consolando a mim mesmo,
sentindo a dor morna
de feridas passadas
Ruborizei-me ao desejar-me,
ao querer provar-me,
sentir-me fora de mim
Conhecer-me fora de mim,
em outra pele, outro corpo,
outros tempos
Mas aquele que antes dava nome
aos meus desertos, rios,
árvores, aquele que conhecia
cada uma das minhas perdas
e ganhos, quanto mais funda
me espelhava,
mas estranho me parecia
Até que na face do espelho
contemplei um rosto
que não era o meu
Tão antigo, tão estranho,
tão envolto em mistérios
O eu mais profundo:
Um desconhecido a compartilhar
as fraquezas, desejos, temores,
indo cada vez mais fundo,
arrancando, demolindo,
trazendo à tona
tudo do bom e do mau
Um terror, um temor antigo tomou-me
Estremeci e a magia se desfez
Novamente diante de mim
o homem-espelho me sorria
Afastei-me perplexo
E aprendi que encontramos
no outro, a quem nos damos,
a nós mesmos
Mas o que encontramos
é por vezes tão estranho
que duvidamos que seja nós
É assim que vivemos
É assim que amamos
Como num espelho
 
Você não pode moldar o vento
Se aprisioná-lo ele perde o ser
e transforma-se
Você não pode moldar as nuvens
por muito tempo,
porque teimosas rebelar-se-ão
Como então segurar o tempo,
agarrar o vento,
segurar na boca um beijo
Como manter fresco nos olhos,
o fogo imaculado da paixão...
De correr atrás do vento
De segurar na mão o tempo,
de dar ser a uma nuvem?
De se manter vivo num beijo...