*
*
*
*
*
*
*
De Saudades
 
(Fernanda Guimarães)
 
 
 
 
 
Os olhares deixam-se tecer
pelos fios da espera
Em tuas ausências,
descubro-me em ansiedades
Rendida à ternura do lembrar,
ao afago do recordar
É como se entregasse o peito
ao desatar do sentir
E num soprar de silêncios incontidos,
confessasse-me
Renegando o claustro,
a tortura do emudecer-me
É que os versos aliciam
minha pretensa quietude
Derramam-me de quaisquer
supostas medidas
Transbordam insones
nas águas despertas
Do coração que só se sabe
a viver em ti
 
 
É que deste às minhas letras
as tuas senhas
As entrelinhas dos teus desejos
e expressões
Assim conjugo-te
em teus assombros
Como se o "eu" e o " tu",
a qualquer tempo
Fossem sempre feitos
do inequívoco "nós"
Ardem em minhas mãos
os teus gestos
E tudo parece combinar
com o tudo de mim
Entrelaçam-se meus dedos
quase sem ar
Como a buscar vestígios
do que não foi dito
Vezes, dispensas as palavras,
o passo seguinte
Asfixiando o que tanto sei
e que não revelas
Mas ainda ficas em mim
nesses momentos
Quando te pensas à salvo
em tuas fugas
 
 
Nesses dias,
em que tudo me falta
E um fino fio me sustenta a alma
Alterno-me entre luas prateadas
de saudades
E dias que me escrevem
sobre teus cheiros
Como se a visão fosse também
olfato e paladar
Minhas mãos sempre acham
que virás
E compõem e me delatam
sem pudores
Dizem dos meus encantamentos
e delírios
Desse estremecer permanente
que me rodeia
Quando te vejo em meus olhares...
 
 

 

Voltar