As Garras Da Felina
(Luiz Alberto Machado)
 
 
Procuro teu cheiro, felina de todos aromas,
sabores e versos
E quero a tua íris dilatada de brilho
no olhar de breu na noite de caça
 
Sei que vens amestrada quando quer
nas savanas do meu desejo, inupta e nua,
pronta para cravar tuas garras retraveis
na pele da minha febre ambiciosa
 
Sei que vem com o teu incenso
que povoa os meus sentidos
E vens de longe e já estás tão perto
espreitando minhas
 vulnerabilidades de amante
 
Se não te vejo, logo percebo
o teu perfume no ronronar vigoroso
Vens arredia, adulta e arisca no bulício
macio do teu passo silencioso, do teu flexível expressar na índole carniceira que já sei pronta para estraçalhar o meu poema esganiçado
 
Acuada no átimo, vens com aguda audição e olfato aguçado: um jeito Márcia Tiburi no parque exclusivo da minha alucinação
 
Indefeso, adivinho tua presença como quem flagra o iminente em riste e almejo o teu sexo como a salvação dos mortais
 
Não há como adiar, e reajo, persigo teus passos suspensos no ar com meu faro
E adivinho a tua boca: o reduto da tigresa, onde alcanço toda amplitude da imensidão
 
Encorajado pela silhueta de teu dorso, circundo teu corpo, arranco as vestes, desnudo com afinco como se conquistasse o meu Brasil ideal: assimétrico e sedutor
 
E com o achado certeiro vou revolvendo sua intimidade completa de folhas e chilreios submersos, sinuosidades, saliências e reentrâncias:
a nudez  deificada
 
Acossada por mim vai rendendo o dorso para a minha travessia caleidoscópica no belo sexo, onde a maiêutica e a vida nascem e renascem nos encontros e reencontros: o gozo repetido de satisfação
 
Sou teu. És minha. E teu desabrochar é a concha dos segredos que te fazem espectro acessível acolhido na minha loucura dionisíaca
 
E embriagado como imigrantes do chão estalamos nossos beijos com marca de tormento e graça e nos dizemos estranhos do mesmo anátema que se dissipa em nossas descobertas abrasadas: o amor, a paixão e o sexo
 
A fera e a presa: a corrente do rio na
certeza de mar
 
Quando a febre apazigua no gozo, me deito em seu corpo
- meu ideal travesseiro -
para nele saber de mim, de ti e de tudo